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FERNANDO
 PESSOA
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                    Mensagem
                                                             Benedictus Dominus Deus noster
                                                                       qui dedit nobis signum




NOTA PRELIMINAR


     O entendimento dos smbolos e dos rituais (simblicos) exige do intrprete que
     possua cinco qualidades ou condies, sem as quais os smbolos sero para ele
     mortos, e ele um morto para eles.
     A primeira  a simpatia; no direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme
     vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intrprete que sentir simpatia
     pelo smbolo que se prope interpretar.
     A segunda  a intuio. A simpatia pode auxili-la, se ela j existe, porm no cri-
     la. Por intuio se entende aquela espcie de entendimento com que se sente o que
     est alm do smbolo, sem que se veja.
     A terceira  a inteligncia. A inteligncia analisa, decompe, reconstri noutro nvel
     o smbolo; tem, porm, que faz-lo depois que, no fundo,  tudo o mesmo. No
     direi erudio, como poderia no exame dos smbolos,  o de relacionar no alto o que
     est de acordo com a relao que est embaixo. No poder fazer isto se a simpatia
     no tiver lembrado essa relao, se a intuio a no tiver estabelecido. Ento a
     inteligncia, de discursiva que naturalmente , se tornar analgica, e o smbolo
     poder ser interpretado.
     A quarta  a compreenso, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras
     matrias, que permitam que o smbolo seja iluminado por vrias luzes, relacionado
     com vrios outros smbolos, pois que, no fundo,  tudo o mesmo. No direi
     erudio, como poderia ter dito, pois a erudio  uma soma; nem direi cultura, pois
     a cultura  uma sntese; e a compreenso  uma vida. Assim certos smbolos no
     podem ser bem entendidos se no houver antes, ou no mesmo tempo, o
     entendimento de smbolos diferentes.
     A quinta  a menos definvel. Direi talvez, falando a uns, que  a graa, falando a
     outros, que  a mo do Superior Incgnito, falando a terceiros, que  o
     Conhecimento e a Conversao do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma
     destas coisas, que so a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas
     usam, falando ou escrevendo.




                                                                                           3
PRIMEIRA PARTE / BRASO




  I.      OS CAMPOS



       PRIMEIRO / OS CASTELOS

       A Europa jaz, posta nos cotovelos:
       De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
       E toldam-lhe romnticos cabelos
       Olhos gregos, lembrando.
       O cotovelo esquerdo  recuado;
       O direito  em ngulo disposto.
       Aquele diz Itlia onde  pousado;
       Este diz Inglaterra onde, afastado,
       A mo sustenta, em que se apoia o rosto.
       Fita, com olhar sphyngico e fatal,
       O Ocidente, futuro do passado.
       O rosto com que fita  Portugal.

       SEGUNDO / O DAS QUINAS

       Os Deuses vendem quando do.
       Comprase a glria com desgraa.
       Ai dos felizes, porque so
       S o que passa!
       Baste a quem baste o que Ihe basta
       O bastante de Ihe bastar!
       A vida  breve, a alma  vasta:
       Ter  tardar.
       Foi com desgraa e com vileza
       Que Deus ao Cristo definiu:
       Assim o ops  Natureza
       E Filho o ungiu.




II. OS CASTELOS



                                                  4
PRIMEIRO / ULISSES

O mito  o nada que  tudo.
O mesmo sol que abre os cus
 um mito brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por no ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por no ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundla decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

SEGUNDO / VIRIATO
Se a alma que sente e faz conhece
S porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raa, porque houvesse
Memria em ns do instinto teu.
Nao porque reencarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste -
Assim se Portugal formou.
Teu ser  como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E  ja o ir a haver o dia
Na antemanh, confuso nada.

TERCEIRO / O CONDE D. HENRIOUE

Todo comeo  involuntrio.
Deus  o agente.
O heri a si assiste, vrio
E inconsciente.
A espada em tuas mos achada
Teu olhar desce.
Que farei eu com esta espada?
Ergueste-a, e fez-se.


                                    5
QUARTO / D. TAREJA

As naes todas so mistrios.
Cada uma  todo o mundo a ss.
 me de reis e av de imprios,
Vela por ns!
Teu seio augusto amamentou
Com bruta e natural certeza
O que, imprevisto, Deus fadou.
Por ele reza!
D tua prece outro destino
A quem fadou o instinto teu!
O homem que foi o teu menino
Envelheceu.
Mas todo vivo  eterno infante
Onde ests e no h o dia.
No antigo seio, vigilante,
De novo o cria!

QUINTO / D. AFONSO HENRIQUES

Pai, foste cavaleiro.
Hoje a viglia  nossa.
Dnos o exemplo inteiro
E a tua inteira fora!
D, contra a hora em que, errada,
Novos infiis venam,
A bno como espada,
A espada como beno!

SEXTO / D. DINIS

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silncio mrmuro consigo:
 o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Imprio, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
 o som presente desse mar futuro,
 a voz da terra ansiando pelo mar.



                                           6
     STIMO (I) / D. JOO O PRIMEIRO

     O homem e a hora so um s
     Quando Deus faz e a histria  feita.
     O mais  carne, cujo p
     A terra espreita.
     Mestre, sem o saber, do Templo
     Que Portugal foi feito ser,
     Que houveste a glria e deste o exemplo
     De o defender.
     Teu nome, eleito em sua fama,
     , na ara da nossa alma interna,
     A que repele, eterna chama,
     A sombra eterna.

     SETIMO (II) / D. FILIPA DE LENCASTRE

     Que enigma havia em teu seio
     Que s gnios concebia?
     Que arcanjo teus sonhos veio
     Velar, maternos, um dia?
     Volve a ns teu rosto srio,
     Princesa do Santo Gral,
     Humano ventre do Imprio,
     Madrinha de Portugal!




III. AS QUINAS


     PRIMEIRA / D. DUARTE, REI DE PORTUGAL

     Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
     A regra de ser Rei almou meu ser,
     Em dia e letra escrupuloso e fundo.
     Firme em minha tristeza, tal vivi.
     Cumpri contra o Destino o meu dever.
     Inutilmente? No, porque o cumpri.

     SEGUNDA / D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL




                                                  7
Deu-me Deus o seu gldio, porque eu faa
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraa,
As horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.
Psme as mos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Alm, que me consome,
E este querer grandeza so seu nome
Dentro em mim a vibrar.
E eu vou, e a luz do gldio erguido d
Em minha face calma.
Cheio de Deus, no temo o que vir,
Pois venha o que vier, nunca ser
Maior do que a minha alma.

TERCEIRA / D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL

Claro em pensar, e claro no sentir,
 claro no querer;
Indiferente ao que h em conseguir
Que seja s obter;
Dplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser --
No me podia a Sorte dar guarida
Por no ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos cus,
Fiel  palavra dada e  ideia tida.
Tudo o mais  com Deus!

QUARTA / D. JOO, INFANTE DE PORTUGAL

No fui algum. Minha alma estava estreita
Entre to grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;
Porque  do portugus, pai de amplos mares,
Querer, poder s isto:
O inteiro mar, ou a orla v desfeita --
O todo, ou o seu nada.

QUINTA / D. SEBASTIO, REI DE PORTUGAL



                                              8
     Louco, sim, louco, porque quis grandeza
     Qual a Sorte a no d.
     No coube em mim minha certeza;
     Por isso onde o areal est

     Ficou meu ser que houve, no o que h.
     Minha loucura, outros que me a tomem
     Com o que nela ia.
     Sem a loucura que  o homem
     Mais que a besta sadia,
     Cadver adiado que procria?


IV. A COROA


     NUN'LVARES PEREIRA

     Que aurola te cerca?
      a espada que, volteando.
     Faz que o ar alto perca
     Seu azul negro e brando.
     Mas que espada  que, erguida,
     Faz esse halo no cu?
      Excalibur, a ungida,
     Que o Rei Artur te deu.
     'Sperana consumada,
     S. Portugal em ser,
     Ergue a luz da tua espada
     Para a estrada se ver!


V. O TIMBRE

     A CABEA DO GRIFO / O INFANTE D. HENRIOUE

     Em seu trono entre o brilho das esferas,
     Com seu manto de noite e solido,
     Tem aos ps o mar novo e as mortas eras -
     O nico imperador que tem, deveras,
     O globo mundo em sua mo.

     UMA ASA DO GRIFO / D. JOO O SEGUNDO



                                                 9
     Braos cruzados, fita alm do mar.
     Parece em promontrio uma alta serra -
     O limite da terra a dominar
     O mar que possa haver alm da terra.
     Seu formidavel vulto solitrio
     Enche de estar presente o mar e o cu
     E parece temer o mundo vrio
     Que ele abra os braos e lhe rasgue o vu.

     A OUTRA ASA DO GRIFO / AFONSO DE ALBUQUERQUE

     De p, sobre os pases conquistados
     Desce os olhos cansados
     De ver o mundo e a injustia e a sorte.
     No pensa em vida ou morte
     To poderoso que no quere o quanto
     Pode, que o querer tanto
     Calcara mais do que o submisso mundo
     Sob o seu passo fundo.
     Trs imprios do cho lhe a Sorte apanha.
     Criou-os como quem desdenha.


SEGUNDA PARTE / MAR PORTUGUEZ


I. O INFANTE

  Deus quere, o homem sonha, a obra nasce.
  Deus quis que a terra fosse toda uma,
  Que o mar unisse, j no separasse.
  Sagroute, e foste desvendando a espuma,
  E a orla branca foi de ilha em continente,
  Clareou, correndo, at ao fim do mundo,
  E viu-se a terra inteira, de repente,
  Surgir, redonda, do azul profundo.
  Quem te sagrou criou-te portugus.
  Do mar e ns em ti nos deu sinal.
  Cumpriu-se o Mar, e o Imprio se desfez.
  Senhor, falta cumprir-se Portugal!


II. HORIZONTE



                                                    10
  O mar anterior a ns, teus medos
  Tinham coral e praias e arvoredos.
  Desvendadas a noite e a cerrao,
  As tormentas passadas e o mistrio,
  Abria em flor o Longe, e o Sul sidrio
  'Splendia sobre as naus da iniciao.
  Linha severa da longnqua costa -
  Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
  Em rvores onde o Longe nada tinha;
  Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
  E, no desembarcar, h aves, flores,
  Onde era s, de longe a abstracta linha
  O sonho  ver as formas invisveis
  Da distncia imprecisa, e, com sensveis
  Movimentos da esp'rana e da vontade,
  Buscar na linha fria do horizonte
  A rvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
  Os beijos merecidos da Verdade.




III. PADRO

  O esforo  grande e o homem  pequeno.
  Eu, Diogo Co, navegador, deixei
  Este padro ao p do areal moreno
  E para diante naveguei.
  A alma  divina e a obra  imperfeita.
  Este padro sinala ao vento e aos cus
  Que, da obra ousada,  minha a parte feita:
  O porfazer  s com Deus.
  E ao imenso e possvel oceano
  Ensinam estas Quinas, que aqui vs,
  Que o mar com fim ser grego ou romano:
  O mar sem fim  portugus.
  E a Cruz ao alto diz que o que me h na alma
  E faz a febre em mim de navegar
  S encontrar de Deus na eterna calma
  O porto sempre por achar.


IV. O MOSTRENGO



                                                 11
  O mostrengo que est no fim do mar
  Na noite de breu ergueu-se a voar;
  A roda da nau voou trs vezes,
  Voou trs vezes a chiar,
  E disse: Quem  que ousou entrar
  Nas minhas cavernas que no desvendo,
  Meus tectos negros do fim do mundo?
  E o homem do leme disse, tremendo:
  El-Rei D. Joo Segundo!
  De quem so as velas onde me roo?
  De quem as quilhas que vejo e ouo?
  Disse o mostrengo, e rodou trs vezes,
  Trs vezes rodou imundo e grosso.
  Quem vem poder o que s eu posso,
  Que moro onde nunca ningum me visse
  E escorro os medos do mar sem fundo?

  E o homem do leme tremeu, e disse:
  El-Rei D. Joo Segundo!
  Trs vezes do leme as mos ergueu,
  Trs vezes ao leme as reprendeu,
  E disse no fim de tremer trs vezes:
  Aqui ao leme sou mais do que eu:
  Sou um povo que quer o mar que  teu;
  E mais que o mostrengo, que me a alma teme
  E roda nas trevas do fim do mundo,
  Manda a vontade, que me ata ao leme,
  De El-Rei D. Joo Segundo!


V. EPITFIO DE BARTOLOMEU DIAS

  Jaz aqui, na pequena praia extrema,
  O Capito do Fim. Dobrado o Assombro,
  O mar  o mesmo: j ningum o tema!
  Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.


Vl. OS COLOMBOS

  Outros havero de ter
  O que houvermos de perder.
  Outros podero achar
  O que, no nosso encontrar,


                                               12
  Foi achado, ou no achado,
  Segundo o destino dado.
  Mas o que a eles no toca
   a Magia que evoca
  O Longe e faz dele histria.
  E por isso a sua glria
   justa aurola dada
  Por uma luz emprestada.


VII. OCIDENTE

  Com duas mos - o Acto e o Destino -
  Desvendmos. No mesmo gesto, ao cu
  Uma ergue o fecho trmulo e divino
  E a outra afasta o vu.
  Fosse a hora que haver ou a que havia
  A mo que ao Ocidente o vu rasgou,
  Foi a alma a Cincia e corpo a Ousadia
  Da mo que desvendou.
  Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
  A mo que ergueu o facho que luziu,
  Foi Deus a alma e o corpo Portugal
  Da mo que o conduziu.


VIII. FERNO DE MAGALHES

  No vale clareia uma fogueira.
  Uma dana sacode a terra inteira.
  E sombras desformes e descompostas
  Em clares negros do vale vo
  Subitamente pelas encostas,
  Indo perder-se na escurido.
  De quem  a dana que a noite aterra?
  So os Tits, os filhos da Terra,
  Que danam na morte do marinheiro
  Que quis cingir o materno vulto
  - Cingilo, dos homens, o primeiro -,
  Na praia ao longe por fim sepulto.
  Danam, nem sabem que a alma ousada
  Do morto ainda comanda a armada,
  Pulso sem corpo ao leme a guiar
  As naus no resto do fim do espao:


                                           13
  Que at ausente soube cercar
  A terra inteira com seu abrao.
  Violou a Terra. Mas eles no
  O sabem, e danam na solido;
  E sombras desformes e descompostas,
  Indo perder-se nos horizontes,
  Galgam do vale pelas encostas
  Dos mudos montes.


IX. ASCENSO DE VASCO DA GAMA

  Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
  Suspendem de repente o dio da sua guerra
  E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos cus
  Surge um silncio, e vai, da nvoa ondeando os vus,
  Primeiro um movimento e depois um assombro.
  Ladeiamo, ao durar, os medos, ombro a ombro,
  E ao longe o rastro ruge em nuvens e clares.
  Em baixo, onde a terra , o pastor gela, e a flauta
  Cailhe, e em xtase v,  luz de mil troves,
  O cu abrir o abismo  alma do Argonauta.



X. MAR PORTUGUS


   mar salgado, quanto do teu sal
  So lgrimas de Portugal!
  Por te cruzarmos, quantas mes choraram,
  Quantos filhos em vo rezaram!
  Quantas noivas ficaram por casar
  Para que fosses nosso,  mar!
  Valeu a pena? Tudo vale a pena
  Se a alma no  pequena.
  Quem quere passar alm do Bojador
  Tem que passar alm da dor.
  Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
  Mas nele  que espelhou o cu.


XI. A LTIMA NAU



                                                         14
  Levando a bordo ElRei D. Sebastio,
  E erguendo, como um nome, alto o pendo
  Do Imprio,
  Foi-se a ltima nau, ao sol aziago
  Erma, e entre choros de nsia e de presago
  Mistrio.
  No voltou mais. A que ilha indescoberta
  Aportou? Voltar da sorte incerta
  Que teve?
  Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
  Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
  E breve.
  Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
  Mais a minha alma atlntica se exalta
  E entorna,
  E em mim, num mar que no tem tempo ou 'spao,
  Vejo entre a cerrao teu vulto bao
  Que torna.
  No sei a hora, mas sei que h a hora,
  Demorea Deus, chame-lhe a alma embora
  Mistrio.
  Surges ao sol em mim, e a nvoa finda:
  A mesma, e trazes o pendo ainda
  Do Imprio.


XII. PRECE

  Senhor, a noite veio e a alma  vil.
  Tanta foi a tormenta e a vontade!
  Restam-nos hoje, no silncio hostil,
  O mar universal e a saudade.
  Mas a chama, que a vida em ns criou,
  Se ainda h vida ainda no  finda.
  O frio morto em cinzas a ocultou:
  A mo do vento pode ergula ainda.
  D o sopro, a aragem --ou desgraa ou nsia--
  Com que a chama do esforo se remoa,
  E outra vez conquistaremos a Distncia --
  Do mar ou outra, mas que seja nossa!


TERCEIRA PARTE / O ENCOBERTO



                                                   15
I. OS SMBOLOS


    PRIMEIRO / D. SEBASTIO

    'Sperai! Cai no areal e na hora adversa
    Que Deus concede aos seus
    Para o intervalo em que esteja a alma imersa
    Em sonhos que so Deus.
    Que importa o areal e a morte e a desventura
    Se com Deus me guardei?
     O que eu me sonhei que eterno dura
     Esse que regressarei.

    SEGUNDO / O QUINTO IMPRIO

    Triste de quem vive em casa,
    Contente com o seu lar,
    Sem que um sonho, no erguer de asa
    Faa at mais rubra a brasa
    Da lareira a abandonar!
    Triste de quem  feliz!
    Vive porque a vida dura.
    Nada na alma lhe diz
    Mais que a lio da raiz
    Ter por vida a sepultura.
    Eras sobre eras se somem
    No tempo que em eras vem.
    Ser descontente  ser homem.
    Que as foras cegas se domem
    Pela viso que a alma tem!
    E assim, passados os quatro
    Tempos do ser que sonhou,
    A terra ser teatro
    Do dia claro, que no atro
    Da erma noite comeou.
    Grcia, Roma, Cristandade,
    Europa-- os quatro se vo
    Para onde vai toda idade.
    Quem vem viver a verdade
    Que morreu D. Sebastio?

    TERCEIRO / O DESEJADO


                                                   16
Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sentete sonhado,
E ergue-te do fundo de noseres
Para teu novo fado!
Vem, Galaaz com ptria, erguer de novo,
Mas j no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
 Eucaristia Nova.
Mestre da Paz, ergue teu gldio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Gral!

QUARTO / AS ILHAS AFORTUNADAS

Que voz vem no som das ondas
Que no  a voz do mar?
E a voz de algum que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.
E s se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos
Que ela nos diz a esperana
A que, como uma criana
Dormente, a dormir sorrimos.
So ilhas afortunadas
So terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando
Cala a voz. e h s o mar.

QUINTO / O ENCOBERTO

Que smbolo fecundo
Vem na aurora ansiosa?
Na Cruz Morta do Mundo
A Vida, que  a Rosa.
Que smbolo divino
Traz o dia j visto?
Na Cruz, que  o Destino,
A Rosa que  o Cristo.
Que smbolo final
Mostra o sol j desperto?


                                          17
     Na Cruz morta e fatal
     A Rosa do Encoberto.


II. OS AVISOS


     PRIMEIRO / O BANDARRA

     Sonhava, annimo e disperso,
     O Imprio por Deus mesmo visto,
     Confuso como o Universo
     E plebeu como Jesus Cristo.
     No foi nem santo nem heri,
     Mas Deus sagrou com Seu sinal
     Este, cujo corao foi
     No portugus, mas Portugal.

     SEGUNDO / ANTNIO VIEIRA

     O cu 'strela o azul e tem grandeza.
     Este, que teve a fama e  glria tem,
     Imperador da lngua portuguesa,
     Foi-nos um cu tambm.
     No imenso espao seu de meditar,
     Constelado de forma e de viso,
     Surge, prenncio claro do luar,
     ElRei D. Sebastio.
     Mas no, no  luar:  luz do etreo.
      um dia, e, no cu amplo de desejo,
     A madrugada irreal do Quinto Imprio
     Doira as margens do Tejo.

     TERCEIRO

     'Screvo meu livro  beiramgoa.
     Meu corao no tem que ter.
     Tenho meus olhos quentes de gua.
     S tu, Senhor, me ds viver.
     S te sentir e te pensar
     Meus dias vcuos enche e doura.
     Mas quando querers voltar?
     Quando  o Rei? Quando  a Hora?



                                             18
     Quando virs a ser o Cristo
     De a quem morreu o falso Deus,
     E a despertar do mal que existo
     A Nova Terra e os Novos Cus?
     Quando virs,  Encoberto,
     Sonho das eras portugus,
     Tornar-me mais que o sopro incerto
     De um grande anseio que Deus fez?
     Ah, quando querers voltando,
     Fazer minha esperana amor?
     Da nvoa e da saudade quando?
     Quando, meu Sonho e meu Senhor?


III. OS TEMPOS


     PRIMEIRO / NOITE

     A nau de um deles tinha-se perdido
     No mar indefinido.
     O segundo pediu licena ao Rei
     De, na f e na lei
     Da descoberta, ir em procura
     Do irmo no mar sem fim e a nvoa escura.
     Tempo foi. Nem primeiro nem segundo
     Volveu do fim profundo
     Do mar ignoto  ptria por quem dera
     O enigma que fizera.
     Ento o terceiro a ElRei rogou
     Licena de os buscar, e El-Rei negou.
     Como a um cativo, o ouvem a passar
     Os servos do solar.
     E, quando o vem, vem a figura
     Da febre e da amargura,
     Com fixos olhos rasos de nsia
     Fitando a proibida azul distncia.
     Senhor, os dois irmos do nosso Nome
     - O Poder e o Renome -
     Ambos se foram pelo mar da idade
      tua eternidade;
     E com eles de ns se foi
     O que faz a alma poder ser de heri.



                                                 19
Queremos ir busclos, desta vil
Nossa priso servil:
 a busca de quem somos, na distncia
De ns; e, em febre de nsia,
A Deus as mos alamos.
Mas Deus no d licena que partamos.

SEGUNDO / TORMENTA

Que jaz no abismo sob o mar que se ergue?
Ns, Portugal, o poder ser.
Que inquietao do fundo nos soergue?
O desejar poder querer.
Isto, e o mistrio de que a noite  o fausto...
Mas sbito, onde o vento ruge,
O relmpago, farol de Deus, um hausto
Brilha e o mar 'scuro 'struge.

TERCEIRO / CALMA

Que costa  que as ondas contam
E se no pode encontrar
Por mais naus que haja no mar?
O que  que as ondas encontram
E nunca se v surgindo?
Este som de o mar praiar
Onde  que est existindo?
lha prxima e remota,
Que nos ouvidos persiste,
Para a vista no existe.
Que nau, que armada, que frota
Pode encontrar o caminho
A praia onde o mar insiste,
Se  vista o mar  sozinho?
Haver rasges no espao
Que dem para outro lado,
E que, um deles encontrado,
Aqui, onde h s sargao,
Surja uma ilha velada,
O pas afortunado
Que guarda o Rei desterrado
Em sua vida encantada?

QUARTO / ANTEMANHA


                                                  20
O mostrengo que est no fim do mar
Veio das trevas a procurar
A madrugada do novo dia
Do novo dia sem acabar
E disse: Que desvendou o Segundo Mundo
Nem o Terceiro quere desvendar
E o som na treva de ele rodar
Faz mau o sono, triste o sonhar,
Rodou e foi-se o mostrengo servo
Que seu senhor veio aqui buscar.
Que veio aqui seu senhor chamar -
Chamar Aquele que est dormindo
E foi outrora Senhor do Mar.

QUINTO / NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor bao da terra
Que  Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogoftuo encerra.
Ningum sabe que coisa quere.
Ningum conhece que alma tem,
Nem o que  mal nem o que  bem.
(Que nsia distante perto chora?)
Tudo  incerto e derradeiro.
Tudo  disperso, nada  inteiro.
 Portugal, hoje s nevoeiro...
 a Hora!


                 *************




                                         21
Sobre o autor e sua obra


                   Fernando Antonio Nogueira
                   Pessoa (1888-1935) nasceu em Lisboa, partindo,
                   aps o falecimento do pai e o segundo casamento da
                   me, para frica do Sul.

                   Freqentou vrias escolas, recebendo uma educao
                   inglesa. Regressa a Portugal em 1905 fixando-se em
                   Lisboa, onde inicia uma intensa atividade literria.

                     Simpatizante da Renascena Portuguesa, corta com ela
                     e em 1915, com Mrio de S-Carneiro, Almada
Negreiros e outros, esfora-se por renovar a literatura portuguesa atravs
da criao da revista Orpheu, veculo de novas idias e novas estticas.

Cria vrios heternimos (Alberto Caeiro, lvaro de Campos, Ricardo Reis,
Bernardo Soares, etc.), assinando as suas obras de acordo com a
personalidade de cada heternimo. Colabora em vrias revistas, publica em
livro os seus poemas escritos em ingls e, em 1934, ganha o concurso
literrio promovido pelo Secretariado de Propaganda Nacional, categoria B,
com a obra Mensagem, que publica no mesmo ano.

Faleceu prematuramente em 1935, deixando grande parte da sua obra
ainda indita.  considerado um dos maiores poetas portugueses.


CRONOLOGIA


1888 -
A 13 de Junho nasce Fernando Antnio Nogueira Pessoa no Largo de So
Carlos n 4, 4 Esq. em Lisboa.

1893 -
Morre com 43 anos o pai de Fernando Pessoa - Joaquim de Seabra Pessoa

1895 -
A me de Fernando Pessoa - Maria Madalena Pinheiro Nogueira Pessoa -
casa, por procurao, com Joo Miguel Rosa - cnsul interino em Durban -
frica do Sul.




                                                                           22
A 26 de Julho escreve Fernando Pessoa a sua primeira quadra  minha
querida mam.

1896 -
A famlia parte para Durbam

1896-1904 -
Fernando Pessoa faz os seus estudos primrios e secundrios em Durbam

1905 -
Fernando Pessoa regressa sozinho a Lisboa, a bordo do navio alemo
Herzog, para se matricular no Curso Superior de Letras que abandona um
ano depois.

1907 -
Fernando Pessoa funda a Empresa bis - Tipografia Editora - Oficinas a
Vapor - que durou escassos meses.

1908 -
Fernando Pessoa inicia a sua atividade como "correspondente estrangeiro"

1912 -
Colabora na revista A guia.

1913 -
Conhece Mrio de S-Carneiro e Jos de Almada Negreiros.

Escreve a poesia Pauis.

1914 -
Primeiros poemas dos seus heternimos Alberto Caeiro, lvaro de Campos e
Ricardo Reis.

1915 -
Publicao dos dois nmeros da revista Orpheu.

1916 -
Mrio de S Carneiro suicida-se em Paris.

1917 -
 publicado o nico nmero da revista Portugal Futurista.

1920 -
Conhece Oflia a quem so destinadas as suas "Cartas de Amor".


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1921 -
Incio da publicao da revista Contempornea onde Fernando Pessoa
colabora.

1924-1925 -
Publicao dos cinco nmeros da revista Athena dirigida por Fernando
Pessoa e Ruy Vaz.

1927 -
Em Coimbra inicia-se a publicao da revista Presena onde Fernando
Pessoa colaborar.

1932 -
Requer, em concurso documental, o lugar de conservador-bibliotecrio do
Museu-Biblioteca Conde de Castro Guimares, em Cascais, no qual no foi
provido.

1934 -
Publicao da Mensagem.

A 31 de Dezembro a Mensagem recebe o prmio da Secretaria da
                     Propaganda Nacional.

                       1935 -
                       A 30 de Novembro Fernando Pessoa morre no
                       Hospital de S. Lus dos Franceses onde tinha sido
                       internado na vspera com uma clica heptica.


                       Nota auto-biogrfica de Fernando Pessoa

                       Nota biogrfica escrita por Fernando Pessoa em 30
                       de Maro de 1935 e publicada, em parte, como
                       introduo ao poema editado pela Editorial Imprio
                       em 1940 e intitulado: " memria do Presidente-Rei
                       Sidnio Pais"


Nome completo: Fernando Antnio Nogueira Pessoa.

Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mrtires, no
prdio n. 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Diretrio) em 13 de Junho de
1888.


                                                                           24
Filiao: Filho legtimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria
Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim Antnio de
Arajo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionsia
Seabra; neto materno do conselheiro Lus Antnio Nogueira, jurisconsulto e
que foi Diretor-Geral do Ministrio do Reino, e de D. Madalena Xavier
Pinheiro. Ascendncia geral: misto de fidalgos e judeus.

Estado: Solteiro.

Profisso: A designao mais prpria ser "tradutor", a mais exata a de
"correspondente estrangeiro em casas comerciais". O ser poeta e escritor
no constitui profisso, mas vocao.

Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1. Dto. Lisboa. (Endereo postal -
Caixa Postal 147, Lisboa ).

Funes sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos
pblicos, ou funes de destaque, nenhumas.

Obras que tem publicado: A obra est essencialmente dispersa, por
enquanto, por vrias revistas e publicaes ocasionais. O que, de livros ou
folhetos, considera como vlido,  o seguinte: "35 Sonnets" (em ingls),
1918; "English Poems I-II" e "English Poems III" (em ingls tambm),
1922, e o livro "Mensagem", 1934, premiado pelo Secretariado de
Propaganda Nacional, na categoria "Poema". O folheto "O Interregno",
publicado em 1928, e constitudo por uma defesa da Ditadura Militar em
Portugal, deve ser considerado como no existente. H que rever tudo isso
e talvez que repudiar muito.

Educao: Em virtude de falecido seu pai em 1893, sua me ter casado,
em 1895, em segundas npcias, com o Comandante Joo Miguel Rosa,
Cnsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prmio
Rainha Vitria de estilo ingls na Universidade do Cabo da Boa Esperana
em 1903, no exame de admisso, aos 15 anos.

Ideologia Poltica: Considera que o sistema monrquico seria o mais
prprio para uma nao organicamente imperial como  Portugal.
Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente invivel em
Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora
com pena, pela Repblica. Conservador do estilo ingls, isto , liberdade
dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reacionrio.

Posio religiosa: Cristo gnstico e portanto inteiramente oposto a todas


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as Igrejas organizadas, e sobretudo  Igreja de Roma. Fiel, por motivos que
mais adiante esto implcitos,  Tradio Secreta do Cristianismo, que tem
ntimas relaes com a Tradio Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e
com a essncia oculta da Maonaria.

Posio inicitica: Iniciado, por comunicao direta de Mestre a Discpulo,
nos trs graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templria de
Portugal.

Posio patritica: Partidrio de um nacionalismo mstico, de onde seja
abolida toda a infiltrao catlico-romana, criando-se, se possvel for, um
sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se  que no
catolicismo portugus houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se
guia por este lema: "Tudo pela Humanidade; nada contra a Nao".

Posio social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que
vai dito acima.

Resumo de estas ltimas consideraes: Ter sempre na memria o
mrtir Jacques de Molay, Gro-Mestre dos Templrios, e combater, sempre
e em toda a parte, os seus trs assassinos - a Ignorncia, o Fanatismo e a
Tirania.


Lisboa, 30 de Maro de 1935




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